40 anos de preconceito
Texto complementar do livro PROPAGANDA É ISSO AÍ! © 2004 Editora Atlas.
Zeca Martins
O texto a seguir não fala especificamente de Propaganda, mas imagino que mostre com argumentos contundentes uma situação em que o preconceito mata a criatividade humana; no caso, comprometendo toda a criatividade potencial disponível em parcela indispensável da força de trabalho.
A criatividade, como já vimos, é, no final das contas, a principal matéria-prima da Propaganda. Então, o texto acaba sendo pertinente aos propósitos de muito daquilo de que este livro trata.
Como será fácil notar, foi escrito com outra intenção (e para publicação em outro lugar); mesmo assim, creio que o leitor poderá se beneficiar com alguns dos pontos de vista aí contidos, extrapolando algumas idéias para melhorar seu dia-a-dia.
A mais brilhante definição de preconceito de que já soube veio-me de Voltaire,
em seu Dicionário Filosófico: "preconceito é uma opinião sem julgamento",
ou seja, adquirimos uma opinião qualquer, não verificamos sua razão de ser
e passamos a acreditar naquilo, simplesmente. Voltaire disse isto por volta
de 1760. Passados mais uns cento e oitenta anos, em meados do século vinte
Einstein lastimou que "hoje, infelizmente, é mais fácil partir um átomo ao
meio do que quebrar um preconceito". Pois, somando-se as coisas, conclui-se
que preconceito deve realmente ser algo indestrutível, ou perto disso.
Tão indestrutível, que o preconceito dos nazistas contra os judeus ainda
perdura no coração de muita gente, mesmo após tanta propaganda contrária. E
dos judeus contra os árabes, e dos árabes contra os judeus, e dos brancos
contra os negros, e dos negros contra os brancos, e dos que são contra
os mulatos, contra os cafusos, os mamelucos, os letrados, os iletrados,
as mulheres, os homens, os advogados, os políticos, os publicitários, os
jornalistas, os nordestinos, os açougueiros, os torneiros-mecânicos (sim,
porque, sem dúvida, haverá alguém cultivando preconceitos contra açougueiros
e torneiros-mecânicos), os velhos, as crianças, os gays e o escambau. Existe
preconceito até contra o escambau.
Assim como não tem fronteiras e nem escolhe raça, faixa etária ou sexo, o
preconceito também não escolhe porta-vozes ou causas. Ele existe dentro de
todos nós, tem diferentes intensidades. Não tem função nem propósito. Apenas
existe, desde que o ambiente seja favorável ao desenvolvimento de um raciocínio
qualquer, um sofisma destes capazes de fazer-nos acreditar no ilógico. Algo
como a prestidigitação. Nada além de opiniões sem julgamento.
Nunca vi alguma pesquisa sobre onde o preconceito ocorre com maior ou menor
incidência. Talvez os americanos, que adoram pesquisar de tudo, já a tenham
feito, mas nunca ouvi falar dela. Mas também não é difícil concluir que
o preconceito não é privilégio de um ou outro segmento da população. Nada
disso. Ele existe em todo lugar, em todo tempo, em todo tudo! Tem em casa,
tem no futebol, tem nas estações de trem.
E tem, claro, nas empresas; porque existem pessoas nas empresas. E pessoas são
a única condição ambiental indispensável para a reprodução do preconceito. Nos
últimos anos surgiu, por exemplo, uma espécie de preconceito no meio
empresarial, mais especificamente na administração de recursos humanos,
que é a rejeição a priori do profissional com mais de quarenta anos de idade.
O quarentão, candidato a uma vaga qualquer, pode e deve desistir de antemão
à sua pretensão de colocação profissional. Ora, exatamente porque ele já tem
mais de quarenta anos. E o que isto significa? Nem Deus sabe. E, claro, muito
menos um certo tipo de recrutador: papagaio de repetição, este recrutador só
sabe que o candidato tem mais de quarenta anos e, por isso mesmo, não pode
ser contratado. É a política da empresa, ora! Mas se perguntarmos a razão
de ser desta política da empresa (ora!), ele, autômato burocratizado não
saberá responder. Basta que ele saiba, e isto o satisfaz plenamente, que a
política da empresa é esta. E ponto. Para ele, políticas empresariais são,
por definição, indiscutíveis (mas que cara teimoso você é! Pare de querer
discutir a política da empresa!).
Gente assim cabe com exatidão de mecanismo de relógio suíço na definição
TÍTERE PROCESSIONÁRIO, criada por Laurence Peter, a maior autoridade mundial
em estudos sobre a incompetência. Títere é sinônimo de fantoche, marionete;
processionário é aquele que segue, apenas segue. Há, para exemplificar,
uma espécie de larva que segue a da frente. Colocadas em círculos, estas
larvas processionárias ficam dando infinitas voltas umas atrás das outras
até morrerem de fome, mesmo quando, como se fez em várias experiências de
laboratório, havia alimento em abundância ao alcance de todas.
O títere processionário, portanto, é um verme que apenas segue e, assim,
se manipula com facilidade. Como sabemos, há muitos deles nas empresas
e demais organizações humanas. Tem da portaria até a presidência. Porém,
quando na administração de recursos humanos, passam por uma metamorfose
peculiar e de origem desconhecida para assumirem a forma mais letal que se
pode verificar na espécie dos títeres processionários: a forma que age sob
estímulo exclusivo do preconceito, aquela opinião sem julgamento à qual já
nos referimos, com poder de determinar a vida de pessoas. Visto que o títere
processionário não pensa, ele é evidentemente incapaz de julgar. E dá-se
a um sujeito destes o tal `poder de vida e de morte' sobre profissionais
que cometeram o terrível engano de não contrariar a natureza das coisas e,
imprevidentes, deixaram o tempo passar, atingindo os quarenta anos. Pela
lógica titeriana-processional, nada mais justo que punir estes ineptos que
não combateram com vigor o passar dos anos. E ousaram envelhecer. Já que o
profissional não foi capaz de fixarse na idade dos trinta anos, também não
será capaz de fixar-se na empresa ou num projeto qualquer. Corte-se-lhe,
pois, a cabeça.
Mas os sujeitos que mudaram o mundo o fizeram, em sua esmagadora maioria,
após completarem bem mais do que quarenta anos. Leonardo da Vinci, Isaac
Newton, Gutemberg, Sidarta Gautama (vulgo Buda), Churchill, De Gaule, Henry
Ford, Mahatma Gandhi, Roger Mila (que, até uns cinqüenta anos, jogou um bolão
pela seleção de Camarões)... dê uma olhadinha em qualquer livro de história
e confira. Só Jesus Cristo não conseguiu; certamente porque não lhe deram
chance de mostrar do que ele seria capaz após os quarenta (se aos trinta e
três já era um terror, imagina aos quarenta!). Talvez os romanos fossem os
precursores desta atual tendência da administração titerianoprocessional de
recursos humanos: "Está a caminho dos quarenta?!? Crucifica o cara!"
Falei com um executivo europeu e ele disse que lá no velho continente
idade não é fator de importância crucial. O que conta é o mix de
vontade-competência-experiência.
Então, estamos, no Brasil, criando know-how para exportação. Preconceito
globalizado, mas made in Brazil! Nossos preconceitos em relação à idade
nos fazem esquecer de sujeitos como Lee Iacocca, Antonio Ermírio de Morais
e mais um punhado de sessentões, setentões e oitentões que, ainda hoje,
estão à frente de seus barcos, são produtivos, arrojados, geram empregos e
fazem suas empresas dar muito lucro.
Por outro lado, sobre os idiotas que recusam um profissional por questão
etária, estes não poderão jamais ler algum texto primoroso que Manuel
Bandeira ou Cora Coralina, ou Goethe ou Ernest Hemingway, tenham escrito,
idosos, no final de suas vidas: por coerência, devem recusar tudo o que
estes e outros tantos velhos desprezíveis tenham produzido. A propósito,
quando escreveu seu Dicionário Filosófico, Voltaire já tinha uns oitenta anos.
Também convém que alguém conte a estes sujeitos (por pura sordidez e maldade)
que logo, logo eles mesmo chegarão aos... quarenta!
Esta gente que cultiva opiniões sem julgamento o faz porque, evidentemente,
não é capaz de julgar coisa alguma. Assim sendo, também não serão capazes de
tomar, com equidade, alguma decisão que exija mais do que alguns neurônios e
raciocínios primários. Devemos desprezá-los, embora com compaixão. E devemos,
por pura lógica, desprezar também, e principalmente, quem lhes confiou o
cargo que exercem.
-----------------------------------------------------------------------
Esta mensagem pode ser encontrada no site "Contando Histórias",
-----------------------------------------------------------------------